segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Review: ⚡ Desert'Smoke - 'Hidden Mirage' EP (2018) ⚡

Da cidade de Lisboa chega-nos uma das maiores surpresas musicais do ano. ‘Hidden Mirage’ é o impressionante EP de estreia (e que estreia!) deste jovem quarteto localizado na periferia da capital portuguesa designado de Desert'Smoke e vem atestado e saturado de um fascinante, envolvente, extraordinário e alucinante Heavy Psych ensolarado, adornado e bronzeado por um tonificante, abrasador, robusto e vibrante Desert Rock. A sua sonoridade de natureza imensamente etérea, arrebatadora e euforizante remete-nos para as solitárias e poeirentas estradas que enrugam todo um deserto fervilhado e calejado pelo intenso sol, massajado pela sedosa brisa e emoldurado pelas imponentes montanhas que riscam os céus corados, de punhos cerrados no volante de um muscle car, prego a fundo no acelerador e olhar envidraçado, distante e ancorado no firmamento que se desdobra pela infinidade desértica adentro. São 28 minutos plenificados de um deslumbramento embriagante que tanto nos respira, hipnotiza e narcotiza com as suas paisagens meditativas, edénicas e sublimes – de beleza insuperável – como nos sacode, excita e implode com a sua possante, furiosa e electrizante avalanche de adrenalina em estado sonoro. Sintam-se atingir o clímax do transe espiritual ao portentoso som de duas guitarras assombrosas que se unificam na edificação de poderosos, serpenteantes, trovejantes e majestosos riffs e se distanciam em solos gritantes, caóticos, frenéticos e delirantes, um baixo dinâmico e revoltoso – conduzido a vigor, movimento, potência e firmeza – que diligencia e sombreia todas as mirabolantes digressões das guitarras, e uma bateria de soberba e contagiante orientação rítmica que tiquetaqueia com desarmante destreza, sensibilidade e sentimento toda esta primorosa epifania desértica brilhantemente narrada pelos Desert’Smoke. Confesso que este EP provocara e instaurara em mim um intenso estádio de assombro que me governara do primeiro ao último tema. ‘Hidden Mirage’ é um registo esmerado e promissor que certamente colherá o devido reconhecimento que lhe é devido. Um EP repleto de uma intrigante, esplêndida e magnetizante fulgência que nos ofusca e seduz com enorme veemência. Banhem a vossa alma neste autêntico oásis musical e vivenciem um dos mais extasiantes EP’s lançados até ao momento em 2018.

ॐ My Sleeping Karma ॐ

🎷 Black Bombaim & Peter Brötzmann @ Passos Manuel, Porto (2017)

🇵🇹 Quelle Dead Gazelle - 'Maus Lençóis' (2016)

domingo, 21 de janeiro de 2018

Colour Haze

© Dan McPharlin

🖤 Colour Haze - "She Said" (live, 2012)

Review: ⚡ Crypt Trip - 'Rootstock' (2018) ⚡

De San Marcos (Texas, EUA) chega-nos um dos mais sérios candidatos a álbum do ano, isto apesar de 2018 ainda viver a primavera da sua existência. ‘Rootstock’ é o segundo e novo álbum do provocante tridente ofensivo Crypt Trip – lançado muito recentemente em formato físico de CD através da sua página oficial de Bandcamp – e vem nutrido e robustecido de um inflamante, intenso e empolgante Heavy Psych N’ Blues locomovido por um elegante, poderoso e excitante Hard Rock de clara devoção setentista. A sua sonoridade de tonalidade quente, ritmada e extasiante envaidece-se num fascinante equilíbrio entre o peso, a robustez, o dinamismo e a subtileza que faz com que a atenção do ouvinte gravite na sua órbita do primeiro ao último tema. São cerca de 40 minutos tanto entregues a uma desenfreada e alucinante galopada que nos hipnotiza, sacode e euforiza, como dedicados a uma saturada atmosfera enevoada por um psicadelismo ensolarado, anestésico e requintado que nos abraça, enfeitiça e deslumbra com tremenda facilidade. Estes descendentes da libidinosa sonoridade ZZ Top’eana têm em ‘Rootstock’ um registo detentor de uma personalidade muito bem conspirada e apurada que promete converter os mais cépticos em seus devotos entusiastas. Deixem-se influenciar e enlevar pelos tirânicos bailados de uma guitarra dominante que se tonifica em riffs dinâmicos, hercúleos e viris, e se revolta em virtuosos, atordoantes e vertiginosos solos. Dancem de forma detida e apaixonada ao envolvente som de um baixo magnetizante, atlético e pulsante de linhas diligentes, tensas, criativas e arredondadas. Balanceiem a cabeça em movimentos pendulares de ombro a ombro na instintiva resposta a uma bateria expedita, veloz e acrobática – de soberba orientação rítmica – que nos incendeia e prazenteia de uma veemente adrenalina, e sintam-se seduzidos por uns vocais sedosos, harmoniosos e intoxicantes que graciosamente sobrevoam e catalisam toda esta excitante e refinada atmosfera de ‘Rootstock’. Se eu já sustentava uma irrepreensível admiração por este exímio power-trio de instrumentos apontados aos corpulentos e vibrantes 70’s, a produção e consequente degustação deste seu novo álbum acaba de catapultar Crypt Trip para o mais alto pináculo da minha preferência musical. Este é indubitavelmente o meu álbum favorito brotado até ao momento no fresco e tenro solo de 2018. Comovam-se e exaltem-se n’Ele.

sábado, 20 de janeiro de 2018

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Review: ⚡ The Band Whose Name is a Symbol - 'Droneverdose' (2018) ⚡

Da cidade-capital de Ottawa (Ontário, Canadá) chega-nos a nova dose de psicadelismo astral brilhantemente cozinhada pelos já carismáticos The Band Whose Name is a Symbol e apelidada de ‘Droneverdose’. Lançado muito recentemente pelo selo discográfico britânico Cardinal Fuzz nos formatos físicos de CD-R e vinil (numa edição ultra-limitada a 50 (CD) e 300 (LP) cópias existentes), este novo álbum da produtiva banda canadiana ostenta um inventivo, celestial e explorativo Psych Rock – tingido e embaciado por um místico, envolvente e hipnótico Krautrock de ares orientais – que nos intriga, deslumbra e atira na vertiginosa direcção das estrelas. Baseado em fascinantes, narcóticas e extasiantes jams de natureza alienígena, este ‘Droneverdose’ é detentor de uma atmosfera autenticamente xamânica – climatizada e temperada por uma sublime espiritualidade sideral – que nos aprisiona numa profunda, labiríntica e temulenta hipnose. Sintam-se levitar e naufragar pela extraordinária infinidade de um Cosmos sedado à arrebatadora boleia de duas guitarras messiânicas que se atiçam e multiplicam em solos borbulhantes, orgásmicos, delirantes e enigmáticos, um baixo reverberante, sólido e dançante, de linhas pulsantes, sombrias e marcantes, uma bateria detidamente entregue a uma ritmicidade absorvente, firme e galopante, um mágico e edénico sintetizador – criador de uma atmosfera verdadeiramente sonhadora – que com os seus esotéricos bailados se enfatiza e opulenta, e ainda um monocórdico cântico gregoriano que ecoa ao longo de toda esta liturgia rezada pelos corpos celestes. ‘Droneverdose’ é uma fabulosa e homérica odisseia pelo vasto e copioso enxame de fornalhas estelares. Uma ataráxica experiência sensorial que nos canaliza a consciência aos sagrados braços do transe. Empoeirem-se na nebulosa alquimia desta nova experiência psicotrópica levada a cabo pela prestigiosa formação norte-americana e sintam-se estarrecer e transcender pela verticalidade do Cosmos interior.

Taste - "What’s Going On" @ The Isle Of Wight Festival (1970)